Entrevista com César Castellanos


O pastor César Castellanos foi, recentemente, alvo de um atentado que quase tirou a sua vida e a de sua família. Castellanos tem sido instrumento de grande impacto em seu país - a Colômbia. Conhecida como uma nação com graves problemas - a guerrilha marxista ainda é uma das mais ativas na América Latina, além do intrincado submundo do narcotráfico -, a Colômbia tem experimentado um genuíno mover do Espírito Santo. A Missão Carismática Internacional, há muito uma igreja em células, experimenta um explosivo crescimento, desde que implantou um novo modelo eclesiológico - o G-12 - uma estrutura que associa o grupo permanente de discipulado com a célula de evangelismo. Num intervalo entre as muitas ministrações do I Congresso Internacional de Igrejas em Células, em São Paulo, o pastor César Castellanos recebeu a reportagem da Videira para esta entrevista.



Videira - Qual o caminho para alcançar tão grande crescimento?

Castellanos - É uma pergunta interessante! Paulo disse que em um estádio todos correm, mas só um leva o prêmio. Quando uma pessoa entra em uma competição, ela o faz para participar ou para ganhar. O que quer ganhar, tem que pagar um preço. O preço é o treinamento, é cuidar da saúde, é o esforço e o ânimo. O mesmo acontece na carreira cristã; quando alguém entra nesta carreira, não deve fazê-lo apenas para ver como é, mas para ser um canal de bênçãos para outras pessoas. É necessário um crescimento interno e externo e, neste aspecto, a cruz de Cristo é muito significativa. Note que a cruz tem dois paus. Um é vertical e nos fala da relação com Deus; o que somos em Deus. A maioria das pessoas se preocupa com o que faz para Deus, mas o fundamental é o que somos em Deus, que é o crescimento interno; é quando Deus entra cavando profundamente dentro de nós e recebemos a estrutura interna, pela qual o caráter de Cristo é reproduzido em nossas vidas. O outro ponto da cruz, o horizontal, nos fala da nossa relação com os outros. É aquilo que o Senhor nos disse acerca dos mandamentos: amar a Deus acima de todas as coisas, no sentido vertical e amar ao próximo como a si mesmo, no sentido horizontal . Quando somos maduros em Deus, isto vai nos levar a ter uma boa relação com o nosso próximo - aqueles que nos cercam.
Videira - Por que o nome Missão Carismática Internacional?

Castellanos - Carismática, porque cremos nos carismas, nos dons do Espírito de Deus e, ainda, porque cuidamos para que cada membro tenha familiaridade com os carismas. Missão significa visão mais ação, porque cremos que todos estamos neste mundo cumprindo uma missão específica, que é dada por Deus e que implica em uma ação da nossa parte. Internacional, porque cremos que a visão que Deus nos deu deve correr todos os lugares do planeta; por isso, cuidamos zelosamente da doutrina.
Videira - Como o senhor define uma igreja em células?

Castellanos - É simples. É a igreja em que todos os crentes estão reunidos em pequenos grupos. A Bíblia diz que os crentes se reuniam, todos os dias, no templo e nas casas. Não havia lugar para congregar todas aquelas oito mil pessoas - frutos das primeiras pregações da Igreja primitiva. As células eram a maneira como poderia ser pastoreada toda aquela gente. Quando não há um trabalho celular, corre-se o risco de cair na massificação - as pessoas perdem a sua identidade. Num trabalho celular, cada pessoa é importante e tem sua própria personalidade e amplas condições de desenvolver seu potencial. Por isso, nós temos feito da visão celular a coluna vertebral da igreja.

Videira - Todos na igreja do senhor estão em uma célula?

Castellanos - Nem todos ainda; mais ou menos uns 70% estão vinculados.
Videira - Em qual modelo de células o senhor buscou inspiração para criar o G-12?

Castellanos - No começo, li todos os livros do doutor Cho (David Yonggi Cho) e adaptei o modelo dele ao nosso contexto cultural. Em 1991, por um período de três meses, o Senhor começou a ministrar à minha vida sobre o modelo dos 12. "Quantas pessoas Jesus conseguiu discipular?", Deus me perguntava. Fui para as Escrituras e vi que os 12 discípulos eram Seus companheiros, Seus amigos, e eram as pessoas que Ele estava formando. Em outras palavras, Jesus escolheu 12 pessoas e reproduziu o Seu caráter nelas, para que elas fizessem o mesmo. E, então, o Senhor me disse: "Filho, se você discipular 12 pessoas e cada uma delas discipular outras 12, assim, muitas pessoas serão alcançadas". Desde então, entendi que o modelo dos 12 é a estratégia de Deus para os dias atuais.
Videira - Qual o perfil do pastor principal no G-12?

Castellanos - No nosso caso, eu tenho o meu grupo dos 12 e tenho que viver no espírito, para que o caráter de Cristo, que há em mim, seja reproduzido nos membros do meu grupo; e eles têm que fazer o mesmo com os seus discípulos, e assim por diante, até atingir toda a congregação. E isto vem através de contatos, de uma ministração baseada em relações. Em algumas nações, como os Estados Unidos, não há uma relação entre o pastor e os membros, e sim apenas uma relação unilateral, onde o pastor exerce muita autoridade. Em nossa missão, priorizamos os relacionamentos pessoais e amorosos; assim, as pessoas podem ver que os pastores não são de outro planeta, que são de carne e osso, e, como elas, sorriem e choram. Estas pessoas fazem o mesmo com seus discípulos, tendo muito tempo de comunhão com eles. Por isto, não temos dificuldades em formar discípulos e discípulos que reproduzam o caráter de Cristo.
Videira - Qual a diferença básica entre o grupo dos 12 e a célula C.A.F.E. (Célula de Adestramento Familiar e de Evangelismo)?



Castellanos - Uma célula não pode ser estática; ela sempre está crescendo. Se não crescesse, não se chamaria célula. O grupo dos 12 não cresce; é estático. De maneira que não deve ser visto como uma célula, e sim como um grupo permanente, de onde vai sair a visão para todas as outras células. Nas demais células, os membros são sempre impulsionados para trazer uma nova pessoa na próxima reunião. Quando uma célula atinge uma determinada quantidade de pessoas, ela multiplica-se e transforma-se em duas novas células. Por outro lado, no grupo dos 12 não há mudanças, não há pessoas novas e não há uma pregação evangelística - é algo estático e permanente. Os meus 12 são meus para sempre, para toda a vida. Os 12 de Jesus são para sempre dEle. Ele mesmo disse que já estabeleceu 12 tronos para tê-los consigo para sempre. Os 12 são os nossos amigos permanentes e lhes ensinamos a visão para que eles a reproduzam. Por outro lado, as células estão em constante movimento e crescimento.
Videira - Que sugestão o senhor daria para um pastor que deseja começar o trabalho de células?

Castellanos - Geralmente, o período de transição implica em tempo, paciência, perseverança e fé. Por experiência, os líderes antigos, conhecidos como os anciãos da igreja, não se amoldam facilmente ao novo modo de vida - eles não querem ser incomodados, de nenhuma forma. Então, quando é apresentada uma visão que implica em mudanças na estrutura, possivelmente, os que primeiro vão se opor serão os anciãos. Por isso, temos visto que a mudança não deve ser de uma maneira brusca. O pastor deve se empenhar primeiramente com os membros mais novos, deixando o programa-piloto com eles; mas, se há algum ancião que deseja entrar na visão, não há problema algum. Quando o programa-piloto apresentar resultados efetivos, é hora de aplicar o modelo, que o pastor está apresentando, a toda a igreja.
Videira - O senhor acredita que no próximo século as células vão ser uma estrutura que poderá contribuir para um avivamento mundial?



Castellanos - "Este modelo vai ser o modelo que o mundo inteiro vai abraçar, porque é integral", foi o

que Deus me disse há alguns meses.

Videira - Nós estamos experimentando um avivamento?

Castellanos - Estes dias que vivemos são dias finais. Estamos frente a dois focos: o avivamento satânico e o avivamento espiritual. Ou as pessoas são absorvidas por um, ou por outro; não tem um meio termo, uma forma de fugir. Esta é uma época de fogo, onde o crente nunca pode ser indiferente ou tímido. É como diz a Palavra: "O que é santo, santifique-se ainda mais" (Ap 22:11).
Videira - Que análise o senhor faz das igrejas de auditório - as igrejas de programas?

Castellanos - Creio que cada congregação cumpre um propósito específico, para o qual Deus a chamou. Respeitamos cada pastor, evangelista e ministro. E cremos que, se Deus lhes confiou uma responsabilidade, eles devem ser fiéis ao que o Senhor lhes entregou.
Videira - Qual o lugar da reunião de celebração na igreja em células?

Castellanos - A igreja celular fortalece a reunião de auditório - é uma combinação. Temos grandes eventos de auditório, com público homogêneo. São eventos que reúnem cerca de 20 mil jovens, mulheres ou homens. É uma grande reunião de celebração.
Videira - Como vocês tratam a pessoa que se converte?

Castellanos - Cada pessoa que se converte, nós a vemos como um líder em potencial. O nosso principal objetivo é fazer de cada membro um ministro. Por isso, damos a esta pessoa a capacitação necessária. Começamos vinculando-a a uma célula e levando-a a participar das reuniões correspondentes.
Videira - Que caminhos percorre, até tornar-se líder, alguém que acabou de ser converter no meio de vocês?

Castellanos - Quando uma pessoa conhece a Jesus, ela entra em um processo de consolidação, para que o fruto seja conservado. Rapidamente, preparamos esta pessoa para um retiro de três dias. Nestes três dias, enfatizamos cinco aspectos fundamentais: a certeza da salvação, a restauração da alma, a quebra de maldições, a cura interior e o conhecimento da visão. Depois disto, a pessoa se vincula a uma célula e começa a orar por outros e, ao mesmo tempo, começa a capacitar-se na Escola de Líderes. Em mais ou menos seis meses, se o processo for seguido de maneira correta, a pessoa já pode estar em condições de dirigir uma célula. Nós cremos nos dons, nos ministérios e na restauração da unção, mas antes disso, cremos nas pessoas, nas vidas. Se uma vida tem um coração para Deus, antes de mandá-la para a obra, precisamos ministrar cura em sua alma; caso contrário, nós a estaremos expondo à morte. Nenhuma nação mandaria atletas para representá-la em uma olimpíada ou em um mundial, sabendo que têm os pés ferido. Primeiro sararia seus pés, antes de mandá-los para a competição. A Igreja, porém, está mandando um exército de homens e mulheres, com os corações feridos e em pedaços, para a guerra espiritual. Muitos pastores não sabem a importância de primeiro ministrar a esses obreiros como indivíduos, como pessoas, o que requer uma relação de pastor e ovelha, onde, segundo a Bíblia, o pastor toma a ovelha pelas mãos e sara as suas feridas e a carrega em seus ombros. Quando é feito um trabalho de apascentamento eficaz, valorizando a pessoa, o trabalho vai ser muito mais fácil, pois o discípulo será capaz de sair e enfrentar qualquer adversidade do mundo. Devemos sarar o coração das pessoas para que a unção de Deus, fresca e restauradora, não venha a perder-se, caindo em odres inapropriados.

Videira - Que a análise o senhor faz dos outros modelos de células existentes?

Castellanos - Cada modelo cumpre um propósito em seu momento e em sua época. Mas, neste momento, cremos que Deus está nos confiando um modelo pelo qual as pessoas podem, de forma prática, crescer e experimentar multiplicação. Cremos que o nosso modelo é muito flexível e se adapta às diferentes culturas e denominações, ajudando nas multiplicações.






Videira - As adaptações ao contexto de cada país onde utiliza-se o G-12 podem trazer prejuízos?

Castellanos - Um modelo não pode ser rígido - deve ser flexível; os princípios é que são inegociáveis. Os Encontros, os Pós-Encontros, a Escola de Líderes e a Consolidação, isso não negociamos; o resto pode ser adaptado à localidade.
Videira - O modelo dos 12 tem recebido algumas críticas. Como o senhor as recebe?

Castellanos - Na verdade, não conheço nenhuma crítica a este modelo. Não tenho conhecimento de alguém que o tenha questionado ou criticado, porque o fruto é palpável.

Videira - No G-12, o peso do trabalho é dividido?

Castellanos - Claro. Hoje, estamos com mais de 15 mil células, com uma assistência de 10 pessoas por célula, mas o peso da igreja não está sobre uma única pessoa. Quando o pastor é o homem que faz tudo, o peso está sobre ele e isto é muito estressante, mas quando o pastor delega responsabilidades, o peso é retirado. Se não tem peso, é porque ele tem sido disseminado sobre muitas pessoas. Uma experiência que tivemos mostra que a igreja não depende do pastor: depois do atentado que sofremos em maio de 97, estive ausente do país por mais de sete meses e os que estavam na igreja não só permaneceram, como multiplicaram-se. Em geral, em qualquer igreja onde o pastor se ausenta por cinco, seis ou sete meses, quando regressa, não a encontra; foi vítima de um golpe de estado.
Videira - Por que o G-12 tem causado tanto frisson?

Castellanos - Creio que é porque as pessoas têm ido à Colômbia e têm visto como funciona o G-12 e se transformam nas maiores propagadoras do sistema. São pessoas que já haviam perdido a esperança ao verem a falta de crescimento em suas igrejas; elas, então, sentem-se desafiadas a implantar o nosso sistema em suas congregações.
Videira - Com tantas atividades, quais são as prioridades em sua vida?

Castellanos - O Senhor me deu cinco passos fundamentais, que são básicos, e os tenho guardado e conservado. Ele me disse, desde o momento em que me chamou, que o primeiro lugar na minha vida deve ser de Deus. Muitas pessoas crêem em Deus, mas não são apaixonadas por Ele. Deus não ocupa o primeiro lugar em seus corações, porque quando isto acontece, elas renunciam a tudo por Ele. O Senhor falou-me, também, da importância da família. Lamentavelmente, alguns têm experimentado êxito em algumas áreas, mas fracassam como pais, como homens ou como esposos. As Escrituras dizem que o ministro deve governar a sua casa de uma maneira sábia; deve ser um líder que inspire exemplo aos membros da família, motivando-os a imitá-lo. Muitos líderes induzem seus filhos à rebeldia, quando anulam este princípio. Antes, tinha o conceito de que o ministério precedia a família. Deus me ensinou que não é assim; a família vem antes do ministério. Mais importante que a igreja e que o número de almas que Deus me entregou, é a minha família. Eu libero muito do meu tempo para minhas filhas e para minha esposa e, neste momento, temos uma relação de amizade, porque todos os dias compartilhamos coisas, rimos juntos e elas amam o que eu faço, porque me vêem como exemplo. Em quinto lugar, está o trabalho secular, que antes pensávamos ser o mais importante, porque sem ele não poderíamos dar comida às nossas famílias -; realmente tínhamos muitos conceitos errados. Resumindo, o mais fundamental é Deus; em segundo lugar estamos nós mesmos; em terceiro lugar vem a família; em quarto, o ministério; e, em quinto lugar, está o trabalho secular. Creio que qualquer pessoa que tenha estes cinco princípios muito claros em suas mentes, nesta ordem, vai crescer muito em Deus.










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